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..::Chão de Versos::..

Carlos Drummond de Andrade

Quero sentir tua mão amiga,
junto da minha no prazer, na dor.
Assim, mesmo entoada a última cantiga,
um som há de restar do nosso amor.
9:26 PM No comments

Carlos Drummond de Andrade


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

8:50 PM No comments


Lira Romantiquinha
Carlos Drummond  de Andrade

Por que me trancas 
o rosto e o riso 
e assim me arrancas 
do paraíso?


Por que não queres, 
deixando o alarme 
(ai, Deus: mulheres!), 
acarinhar-me?


Por que cultivas 
as sem perfume 
e agressivas, 
flores do ciúme?


Acaso ignoras 
que te amo tanto, 
todas as horas, 
já nem sei quanto?


Visto que em suma 
é todo teu, 
de mais nenhuma, 
o peito meu?


Anjo sem fé 
nas minhas juras, 
porque é que é 
que me angusturas?


Minh'alma chove 
frio, tristinho. 
Não te comove 
este versinho?

9:32 PM No comments
Eu estava olhando os poemas do blog, e parece que eu sou meio anti-romântica, por isso decidi publicar aqui um poema romântico (as más línguas vão me zuar... eu sei... né Alice?) mas eu vou colocar mesmo assim...

As sem-razões do amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
10:06 PM No comments


Mãos Dadas

Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
5:16 PM 1 comments

Quero
Carlos Drummond de Andrade
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

5:24 PM 1 comments
Cidadezinha qualquer


Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras 

mulheres entre laranjeiras 
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar. 

Um cachorro vai devagar. 
Um burro vai devagar. 
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus. 

Tirado de Alguma Poesia
9:10 PM No comments
Ontem eu estava vendo vídeos no Youtube, e achei por lá trechos de entrevistas com Carlos Drummond de Andrade... Nunca tinha pensado em procurar por poetas mortos no Youtube, acho que nem eu e nem a maioria das pessoas, não sei se por nunca terem pensado nisso (como eu) ou por preferirem assistir a um clipe qualquer do Parangolé... Por curiosidade fui ver quantas exibições tem um vídeo sem noção e modinha do citado grupo de música (se é que a gente pode ofender a música deste jeito) pra ver quantas exibições tinha... um vídeo postado em Agosto do ano passado tinha 467.520 visitas enquanto o vídeo de um grande poeta estava com míseros 24.585, sendo que o do Drummond foi postado em 2008!  
Pra dar um empurrãozinhuuu decidi postar aqui... Vale a pena ver!

5:13 PM No comments
 Quadrilha
Carlos Dummond de Andrade
 
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 
1:25 PM No comments
Composição  
Carlos Drummond de Andrade

E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
algo que escorre, peixe dúbio,
a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu. 

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão. 

O mais é barro, sem esperança de escultura.
1:20 PM No comments
Hoje fui inventar de escrever numa sala de espera, acho que é um bom lugar para se escrever... mas ao contrário de todas as vezes que escrevi em salas de espera não fiz quase nada, foi até difícil sair alguma coisa, porém o estranho é que tinha alguma coisa para sair... Aí eu lembrei de uma poesia do Drummond ... É quase isso.

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia desse momento
inunda minha vida inteira.
9:15 PM 1 comments
Resíduo
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
7:14 PM No comments
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