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..::Chão de Versos::..

Um dia desses, na faculdade, deparei-me com uma feirinha de livros e cobravam por centímetro, então aproveitei, comprei vários livros, uns maiores, outros menores e acabei por deparar-me com um livro chamado A Dangerous Knowing: Four Black Women Poets.
Uma das poetisas da coletânea, GraceNichols, encantou-me muito. Hoje, vim trazer um dos seus poemas:

Beauty


Grace Nichols
Beauty
is a fat black woman
walking the fields
pressing a breezed
hibiscus
to her cheek
while the sun lights up
her feet
Beauty
is a fat black woman
riding the waves
drifting in happy oblivion
while the sea turns back
to hug her shape



Beleza

Beleza
é uma gorda mulher negra
andar nos campos
pressionando como uma brisa
um hibisco
no seu rosto
enquanto o sol ilumina
seus pés
Beleza
é uma gorda mulher negra
cavalgando as ondas
deslizando feliz no esquecimento
enquanto o mar reflui
para abraçá-la mansamente

3:40 PM No comments
Manuel Bandeira
O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
- Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
- Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito capricho
De mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
- Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.
8:54 PM No comments

Carlos Drummond de Andrade


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

8:50 PM No comments
Mário de Andrade
A Serra do Rola-Moça

Não tinha esse nome não...

Eles eram do outro lado,

Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele

Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite

Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puseram de novo
Pelos atalhos da serra

Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,

Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!

Riam até sem razão.

A Serra do Rola-Moça


Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde

Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,

Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam

Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,

Buscando o despenhadeiro.

Ali, Fortuna inviolável!

O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro

O noivo se despenhou.

E a Serra do Rola-Moça

Rola-Moça se chamou.
8:43 PM No comments
Pneumotórax
Manuel Bandeira



Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

11:16 AM No comments

O Amor
Fernando Pessoa
O amor, quando se revela, 

Não se sabe revelar. 
Sabe bem olhar p'ra ela, 
Mas não lhe sabe falar. 

Quem quer dizer o que sente 
Não sabe o que há de *dizer. 
Fala: parece que mente 
Cala: parece esquecer 


Ah, mas se ela adivinhasse, 
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse 
Pr'a saber que a estão a amar! 

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente 
Fica sem alma nem fala, 
Fica só, inteiramente! 

Mas se isto puder contar-lhe 
O que não lhe ouso contar, 
Já não terei que falar-lhe 
Porque lhe estou a falar.


8:35 PM No comments

A Dança
Pablo Neruda

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio 
ou flecha de cravos que propagam o fogo: 
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva 
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores, 
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo 
o apertado aroma que ascender da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde, 
te amo directamente sem problemas nem orgulho: 
assim te amo porque não sei amar de outra maneira, 

Se não assim deste modo em que não sou nem és 
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha 
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
9:09 PM No comments


Lira Romantiquinha
Carlos Drummond  de Andrade

Por que me trancas 
o rosto e o riso 
e assim me arrancas 
do paraíso?


Por que não queres, 
deixando o alarme 
(ai, Deus: mulheres!), 
acarinhar-me?


Por que cultivas 
as sem perfume 
e agressivas, 
flores do ciúme?


Acaso ignoras 
que te amo tanto, 
todas as horas, 
já nem sei quanto?


Visto que em suma 
é todo teu, 
de mais nenhuma, 
o peito meu?


Anjo sem fé 
nas minhas juras, 
porque é que é 
que me angusturas?


Minh'alma chove 
frio, tristinho. 
Não te comove 
este versinho?

9:32 PM No comments
 Timidez
Cecília Meireles


Basta-me um pequeno gesto, 
feito de longe e de leve, 
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...


— mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...


— palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes, 
entre os ventos taciturnos, 
apago meus pensamentos, 
ponho vestidos noturnos, 


— que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres, 
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo, 
até não se sabe quando...


— e um dia me acabarei.
12:57 PM No comments
Eu estava olhando os poemas do blog, e parece que eu sou meio anti-romântica, por isso decidi publicar aqui um poema romântico (as más línguas vão me zuar... eu sei... né Alice?) mas eu vou colocar mesmo assim...

As sem-razões do amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
10:06 PM No comments
Epigrama n. 2
Cecília Meireles
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
4:01 PM No comments


Mãos Dadas

Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
5:16 PM 1 comments
As inscrições para o 20º Concurso Nacional de Poesia Augusto dos Anjos estão abertas do dia 05 de Setembro ao dia 05 de Outubro de 2011. E podem ser feitas pelo site do Jornal Leopoldinense. 


Imagem:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgdIdBbSyy3LYukumMB_IxDJo9qK3w3vc75Edl1liKM3_CSwJVMAmSAPo9P4ui2Js57xDwgvq6UlSHr4EUCxbrvf0uR34txjUGh1eGL4TkIBCsJNOKN8T2TM47jippNCB5AJ0AX_uo9QPps/s1600/cartaz+augusto+dos+anjos+2011.jpg
5:36 PM No comments
Alma minha gentil, que te partiste
Luís de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algúa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

9:11 PM No comments

Quero
Carlos Drummond de Andrade
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

5:24 PM 1 comments
Traduzir-se
                                                                                   Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


De Na Vertigem do Dia (1975-1980)
 
1:07 PM No comments
Cidadezinha qualquer


Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras 

mulheres entre laranjeiras 
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar. 

Um cachorro vai devagar. 
Um burro vai devagar. 
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus. 

Tirado de Alguma Poesia
9:10 PM No comments
Outro dia, eu estava mexendo no meu livro de literatura do 1º ano, e por lá encontrei um poema que gosto muito, porém, tinha me esquecido...

A Estrela 
Manoel Bandeira
Vi uma estrela tão alta, 
Vi uma estrela tão fria! 
Vi uma estrela luzindo 
Na minha vida vazia. 

Era uma estrela tão alta! 
Era uma estrela tão fria! 
Era uma estrela sozinha 
Luzindo no fim do dia. 

Por que da sua distância 
Para a minha companhia 
Não baixava aquela estrela? 
Por que tão alto luzia? 

E ouvi-a na sombra funda 
Responder que assim fazia 
Para dar uma esperança 
Mais triste ao fim do meu dia.
9:03 PM No comments

Rosas

Alphonsus de Guimarães


Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?
12:40 PM No comments
Nesta Medonha Carruagem...

Alphonsus de Guimarães

Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.
Foram-se as brancas horas sem rumo.
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.
Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram : – Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!
Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.
12:36 PM No comments
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