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..::Chão de Versos::..




Para quem ainda não sabe eu estou cursando o meu mestrado em Estudos Ingleses na Universidade de Munique, semestre passado nós tivemos uma matéria intitulada “Early Modern Poetry” onde estudamos vários poetas ingleses do período da renascença, passando pela era Tudor e indo até a era Elizabetana, falamos, analisamos e discutimos os grandes poetas dessa eras, Wyatt, Surrey, Spenser, Shakespeare, entre outros, e o que todos tinham em comum? Eram homens.
Em momento algum estudamos as poetizas que escreveram nessa época, e eu, no final do semestre decidi que o meu ensaio, um trabalho de vinte páginas, seria dedicado a uma dessas mulheres, e eu escolhi Isabella Whitney, não sabemos muito sobre sua vida, mas sabemos que ela conseguiu uma façanha: escrever e publicar textos seculares em uma época onde mulheres não sabiam nem ler, nem escrever e eram consideradas legalmente como propriedade dos seus pais, e mais tarde, de seus maridos.
Isabella mostra-se uma mulher muito bem instruída e versada em assuntos como história de mitologia grega, o que mais me incomoda é  que hoje, cinco séculos depois, ainda não estudamos, não falamos e não damos importância a uma das únicas vozes femininas que temos acesso da época renascentista.
E você? Já leu poesia de mulheres renascentistas? Qual a sua favorita?

ENGLISH - Maybe you already know that I am getting my master's degree in English Studies at the University of Munich, and last semester, we had a course entitled “Early Modern Poetry”, where we studied several English poets of the Renaissance period, which includes the Tutor and the Elizabethan era, we talked, we analyzed and we discussed the great poets of that time, Wyatt, Surrey, Spenser, Shakespeare, among others, and what did they all have in common? They were men.
We didn’t even mention the female renaissance poets, and I, at the end of the semester, decided that my essay, in a twenty-page work, would be dedicated to one of these women, and I chose Isabella Whitney. We don’t really know much about Isabella’s life, but we know that she managed to do something incredible: writing and publishing secular texts in a time when women couldn’t even read or write and were legally seen as property, owned by their parents, and later, by their husbands.
Isabella appears to be a woman very well educated and well versed in subjects such as history and Greek mythology. And what bothers me most is that today, five centuries later, she is nowhere to be found in our studies, we don’t talk about, we don’t read and we don’t give attention to one of the only female voices from the Renaissance era.
Have you ever read renaissance woman poets? Do you have a favorite?

11:37 AM No comments

Título: A Voz da Sereia Retorna Nesse Livro
Autora: Amanda Lovelace
Plataforma que li: Scribd
Avaliação: 3 ⭐️



🧜‍♀️ 🌊
Li esse livro como parte do desafio de leitura da Popsugar, eu teria que ler um livro com apenas letras na capa, sem gráficos ou designs, então, como eu estou numa vibe bem poética ultimamente, decidi ler.
Sim, eu dei apenas três estrelas, e confesso que eu achei que gostaria mais desse livro do que acabei gostando, e três estrelas na minha classificação não significa que o livro é ruim, o livro é bom! Mas tem alguns aspectos que ele deixou a desejar.
Antes de falar desses aspectos, vale a pena ressaltar que esse livro fala de assuntos bem complicados, como abuso emocional e sexual, por exemplo.
Agora indo direto ao ponto, por mais que o livro passe uma primeira impressão de profundidade, eu achei meio raso e repetitivo, talvez pelo fato de eu estar habituada à leitura de poesias mais clássicas, ou não, ultimamente tenho lido muita poesia contemporânea, como o livro da resenha que publiquei anteriormente: Um Conhecimento Perigoso, que é de poesia contemporânea escrita bela, e ricamente, escrita por mulheres negras que abordam temas similares ao abordado aqui, a diferença é que, em “A Voz da Sereia Retorna Nesse Livro” me parece que a autora quis fazer um compilado de frases tumblr em torno de uma temática, que sim, merece atenção.
Eu gosto de poesia que é bem estruturada, bem escrita, cheia de metáforas, personificações, brincadeiras com os sons e uso de imagens.
Acho que esse livro tem frases incríveis pra colocar de status ou mandar de indireta, mas não sei se eu gosto como uma obra poética.
Se você não leu, não sinta-se desencorajado, literatura é tão pessoal quanto música, o poema que não me tocou pode ser o novo amor da sua vida!
Concorda? Discorda? Já leu? Deixe o seu comentário, vamos continuar a discussão, gosto de saber opiniões diferentes da minha.
10:26 AM No comments
Título: Monday‘s not coming (Monday não virá {tradução livre do título}).
Número de páginas: 464
Autora: Tiffany D. Jackson
👩🏾‍🦱👩🏿📝👯‍♀️



Poucos livros me fizeram pensar como este livro, é um daqueles livros que tem o poder de te fazer questionar as mais comuns construções sociais, essas que aceitamos e reproduzimos todos dias, consciente ou inconscientemente.
Monday’s not coming conta a história de duas meninas, melhores amigas, Claudia e Monday, vivendo o começo da adolescência, ambas meninas negras que vivem realidades completamente diferentes, enquanto a família de Claudia é estrutura e oferece apoio, Monday não tem a mesma sorte, ela mora em condições deploráveis junto com seus irmãos e sua mãe, que não é das melhores. As duas garotas eram inseparáveis até o dia em que Monday desapareceu.
Desesperada, Claudia tenta encontrar a amiga e parece que ninguém mais notou que Monday está desaparecida. Vou parar por aqui para não dar spoilers, rs.
É uma pena que eu não tenha achado esse livro em português, eu considero uma leitura obrigatória, especialmente para as pessoas como eu, que sou professora, que lidam com crianças e adolescentes. Esse livro é uma obra de ficção que não tem como ser mais realista, tocante e de um tema muito importante, às vezes, tragédias envolvendo crianças podem ser evitadas de nós, adultos, pais, educadores, vizinhos, ouvirmos as crianças.
Eu espero que esse livro seja traduzido para o português e caso você leia em inglês, fica a dica.
Eu indico este livro para quem gosta da escrita da Angie Thomas de A Hora da Virada e O Ódio Que Você Semeia.
Você costuma ler livros com essa temática?

2:14 PM No comments
Um dia desses, na faculdade, deparei-me com uma feirinha de livros e cobravam por centímetro, então aproveitei, comprei vários livros, uns maiores, outros menores e acabei por deparar-me com um livro chamado A Dangerous Knowing: Four Black Women Poets.
Uma das poetisas da coletânea, GraceNichols, encantou-me muito. Hoje, vim trazer um dos seus poemas:

Beauty


Grace Nichols
Beauty
is a fat black woman
walking the fields
pressing a breezed
hibiscus
to her cheek
while the sun lights up
her feet
Beauty
is a fat black woman
riding the waves
drifting in happy oblivion
while the sea turns back
to hug her shape



Beleza

Beleza
é uma gorda mulher negra
andar nos campos
pressionando como uma brisa
um hibisco
no seu rosto
enquanto o sol ilumina
seus pés
Beleza
é uma gorda mulher negra
cavalgando as ondas
deslizando feliz no esquecimento
enquanto o mar reflui
para abraçá-la mansamente

3:40 PM No comments


"Quentando a Janta" - óleo sobre tela - 40x60cm

Pintura de Alfredo Vieira - 2017
(baseada na fotografia de Wilson Saraiva)
Amei tanto essa pintura que decidi compartilhar por aqui. 

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11:09 AM No comments

É estranho escrever aqui novamente, sinto como estivesse me comunicando com uma outra eu que não existe mais, ou talvez, que, em partes, ainda exista, mas apenas em partes, algumas coisas nunca mudam e sinceramente acho que nunca vão mudar.
Mas, essa pagina não me vê há muito tempo, e nesse "muito tempo" muita coisa mudou, de aparência não mudei tanto, mas mudei de estado civil e ate de pais. Mudei a forma como vejo o mundo, mas não mudei o meu amor pela literatura, ele está até hoje "cá dentro e não quer sair", e espero que por aqui fique.
Comecei muitos outros projetos, li inúmeros outros livros, e escrevi incontáveis outras linhas, e hoje, mais de oito anos depois, estou aqui novamente.
Pegue um café, sente-se confortavelmente para ler bem lentamente este Chão de Versos.
8:22 PM No comments
Apenas isso...
9:28 PM No comments
Carlos Drummond de Andrade

Quero sentir tua mão amiga,
junto da minha no prazer, na dor.
Assim, mesmo entoada a última cantiga,
um som há de restar do nosso amor.
9:26 PM No comments
Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
9:23 PM No comments

Adélia Prado
Há mulheres que dizem: 
Meu marido, se quiser pescar, pesque, 
mas que limpe os peixes. 
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, 
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. 
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, 
de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
ele fala coisas como "este foi difícil" 
"prateou no ar dando rabanadas" 
e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez 
atravessa a cozinha como um rio profundo. 
Por fim, os peixes na travessa, 
vamos dormir. 
Coisas prateadas espocam: 
somos noivo e noiva.
4:13 PM No comments
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